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“Para impedir uma catástrofe, os países do Sul têm de reduzir a dívida de forma radical”

Interview mit Hans-Werner Sinn, Diário Económico, 21.03.2011, Nr. 5138, S. 14

O presidente do IFO acredita que a única forma de reduzir os défices dos países do sul da Europa é colocar um travão a fundo ao endividamento.


Os mercados financeiros devem manter-se vigilantes, caso contrário “maximizamos os riscos de longo prazo na Europa”. A convicção é do presidente do IFO – instituto alemão de investigação económica. Em entrevista ao Diário Económico, Hans-Werner Sinn, defende que acalmar totalmente os mercados não é a melhor estratégia.

A Alemanha esteve na origem e sempre deumuita importância ao Pacto de Estabilidade. As novas mudanças, como antecipar sanções, por exemplo, vão na boa direcção?

Considero-as muito vagas. Ter um critério da dívida além do critério do défice é positivo, mas no final terá de haver uma decisão política sobre o que fazer. E [neste momento] são os pecadores que vão decidir sobre as multas e as sanções. Serão juízes emcausa própria. É este o problema que vejo. Não é muito melhor que o anterior Pacto de Estabilidade.

Que devia ser feito?

O que precisamos é de um mecanismo automático com regras, sanções e multas que seja instituído por um órgão autónomo na Europa, como o Tribunal Europeu de Justiça ou um Procurador-geral. Até criarmos isso, tenho dúvidas que vá funcionar.

Não confia na Comissão Europeia para assegurar a aplicação do Pacto?

Prefiro um órgão independente, que não seja um órgão político.

As mudanças introduzidas no mecanismo de estabilidade (o fundo de resgate), desde o aumentodacapacidade à flexibilidade, são suficientes para acalmar o mercado?

Acalmar totalmente os mercados não é uma estratégia apropriada. Temos de impedir o pânico mas precisamos que os mercados permaneçam vigilantes. Se acalmarmos totalmente osmercados,maximizamos os riscos de longo prazo na Europa. Os défices correntes vão continuar e as posições de dívida externa dos países do sul vão-se acumulando. Estes crescentes desequilíbrios acabariam pordestruir o sistema do euro.

Então qual é a solução?

Precisamos de uma condicionalidade clara. Algoquenos diga:uma determinada liquidez estará disponível para um país para um período limitado de tempo. Depois, os países entrariam numa fase de insolvência iminente comumaredução negociada de dívida (’haircuts’ na expressão inglesa) às custas dos credores commaturidades a vencer. E só no final, se o país for mesmo incapaz de levar a cabo as reformas necessárias, será declarado o estado de insolvência com uma moratória da dívida. É de um procedimento claro que precisamos, com um passo a seguir ao outro, para que o país tenha o incentivo para agir a sério.Não é isto queestáaser feito.

A nova regra da flexibilidade em discussão no fundo de resgate para comprar dívida no mercado primárioserve parapermitiroregresso ao mercado a um país que tenha pedido ajuda ou para ser usadapontualmente?

Isso só pode ser autorizado se a condicionalidade for exactamente amesma que para os empréstimos [do fundo de resgate] e no quadro dosmesmosmecanismos que permitem os empréstimos. Por isso o FMI terá de participar no financiamento, visto que se aplicam todas as condições habituais. Seumempréstimo for concedido aumpaís, esse país terá de assinar a factura. Tornar esta factura num activo transaccionável não é desejável.

No debate público alemão veio à tona uma certa desconfiança da Alemanha face ao sul da Europa. Tambémconsidera que as pessoas no sul são preguiçosas e têmaversão a reformas?

Preguiça não,mas [quanto a] falta de reformas sim. Os países do sul têm simplesmente défices externos astronómicos que vão conduzir a um desastre se não foremtomadas imediatamente medidas radicais, mesmo revolucionárias. A economia está em colapso. Portugal e Grécia têm défices externos na ordemdos 10%do PIB.Não conheço casos na história com números tão elevados. Para nos livrarmos disto, é preciso apertar de forma radical as restrições orçamentais. Os dois países estão a viver alémdas suaspossibilidades, endividando-se no estrangeiro. Isto é extremamente perigoso. Não se pode viver a crédito para sempre.

A Alemanha está agora a basear o seu crescimento mais na procura interna e menos nas exportações…

Sim, mas não é consumo, é investimento.

É isto que vai a prazo reequilibrar os problemas estruturais da zona euro?

Não, mas vai ajudar. A Alemanha vai exportar uma menor porção das suas poupanças, vai crescer mais rapidamente, vai importar mais, ter saláriosmaioreseperdera sua competitividade exportadora.

Isso ajudará os países do sul a reequilibrar as suas contas externas?

Não é suficiente, porque mesmo que a Alemanha reduza as exportações os países do sul podem continuar a obter crédito do fundo [de resgate sedeado] no Luxemburgo, ou da China ou de outras fontes. Para impedir a catástrofe terão de reduzir o seu endividamento externo de forma radical. Para isso terãode levar a cabo programas de austeridade para reduzir o excessodedespesa.

A Alemanha está a assumir uma preponderância enorme nos últimos anos moldando a zona euro à sua imagem. Nesta nova era, há alternativa a que todos os países germanizemas suas economias?

Cada país seguirá o seu caminho mas nenhum país pode viver para sempre acima das suas possibilidades. Cabe aos países do sul encontrar a forma menos dolorosa possívelde lá chegar.

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