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Portugal não precisará de reestruturar a dívida

Entrevista com Hans-Werner Sinn, Jornal de Negócios, Economia 26 e 27, 15.11.2010

Numa entrevista por telefone e email, terminada na quinta-feira, o economista avisa que Portugal e os outros periféricos vão ter “uma década difícil”

Hans-Werner Sinn é um dos mais importantes economistas alemães.Talvez o mais conhecido. Preside ao instituto germânico Ifo, e é tido como uma das vozes do que muitos descrevem como a ortodoxia económica alemã. Nesta entrevista, traça um perfil da Alemanha muito diferente do que é hábito ouvir no Sul da Europa: um país que atravessou um longo deserto na última década, que enfrenta sérias dificuldades e tem poucas possibilidades de ajudar os parceiros europeus. A próxima década será, no entanto, do seu país, assim espera.

Como vê o agravar da crise financeira e de dívida na Europa?

Vejo-a como extremamente perigosa porque os rácio de défice são astronómicos. A Irlanda terá um défice de 32% do PIB este ano.Outros países como a Grécia, Reino Unido, Espanha e Portugal terão défices na casa dos 9% a 14%.

Como podem estes países resolver as dificuldades actuais?

Só com um programa de austeridade. Estes países viveram um longo período de tempo acima das suas possibilidades, financiando parte do seu consumo com fundos privados e públicos emprestados. Isto foi possível graças a restrições orçamentais suaves. Isto já não está disponível: cada um tem que se adaptar e reduzir o consumo para o nível que consegue financiar.

Quando a Grécia precisou de ajuda, enfrentou forte resistência da Alemanha. Agora, quando Portugal e Irlanda enfrentam dificuldades, a Alemanha fala em reestruturação de dívida. O que pensa disto?

Nos últimos 10 anos, com o euro, a Alemanha perdeu muito “sangue”,  através de “transfusões” para economias como Portugal, Espanha, Grécia ou Irlanda. Falo da exportação de capital: a Alemanha foi, de longe, o maior exportador de capital, e por isso muito pouco capital esteve disponível para investimento doméstico: apenas um terço, dois terços foram exportados. Além disso, a Alemanha passou por reformas difíceis e duras, que levaram à demissão do governo de Schroder, baixando salários na parte mais baixa da distribuição de rendimentos. Também teve, e tem, problemas com a unificação alemã. A possibilidade da Alemanha financiar o consumo de outros países simplesmente não existe.

A minha pergunta é sobre o comportamento nos precisos momentos de exacerbações da crise...

As duas estão relacionadas. As pessoas têm medo que esta seja uma transferência permanente de recursos económicos, de um país que, já agora, também tem os seus problemas de dívida: a Alemanha tem um rácio de dívida sobre o PIB maior que a Espanha. Porque é que a Alemanha deve ajudar a Espanha, quando esta tem uma dívida menor? E Portugal tem um nível de dívida semelhante ao alemão.

Dadas as dificuldades que Portugal ou a Irlanda estão a enfrentar, este é o melhor momento para avançar com propostas de reestruturação de dívida? Isto não está a tornar a crise ainda mais difícil de resolver?

Viver de fundos emprestados é como tomar drogas. Não é saudável. Por isso, as drogas têm de ser reduzidas. A economia mundial recuperou e chegou o momento de todos os países reequilibrarem os seus orçamentos. Há muitas pessoas ricas em Portugal e em países similares que poderiam pagar mais impostos para ajudar a cobrir o défice.

Isso é o que estes países estão a afazer. Não deveria a Europa esperar por um melhor momento para avançar?

As medidas de austeridades ainda não foram efectivamente tomadas. O momento é ideal: a economia mundial está em expansão. Para todos os países que estavam habituados a sobreendividar-se, será uma década difícil. E quanto mais cedo perceberem que terão de reduzir os seus níveis de vida para os dos seus rendimento, mais fácil será.

Diria que há uma crise política na Europa relativa às relações de solidariedade e responsabilidade entre países?

Temos de facto uma crise dessas. A interpretação alemã para o euro foi a de que não seria uma união de transferências, onde nenhum país suporta a dívida de outro. Além disso, não está a ser considerado que, com a unificação, a Alemanha caiu muito no “ranking” de PIB “per capita”: mesmo a Alemanha Ocidental é, em termos “per capita”, mais pobre que a França, o Reino Unido ou a Irlanda. Um mecanismo onde os países pobres pagam ao país rico é um pouco estranho.

É possível ter uma união monetária no longo prazo sem um aprofundamento da solidariedade orçamental e com transferências dentro da união?

Sim, claro. Nos EUA, se um Estado for à falência, nenhum outro Estado ajudará. A Europa não está de forma alguma numa situação semelhante, pois nem é um país.

Então não há necessidade de um maior orçamento comum na Zona Euro para resolver o tipo de problemas actuais?

Não vejo essa necessidade. O que precisamos é de mais disciplina orçamental, não mais orçamento. Quando você e um vizinho pedem empréstimos a um banco, não faz sentido que garantam mutuamente a amortização ao banco.  Especialmente se o vizinho pediu emprestado mais do que você e não será provável que consiga pagar.

Paul de Grauwe, Martin Wolf ou Paul Krugman têm sido muito críticos, defendendo que a Alemanha não está à altura das responsabilidades de ser a maior economia da Europa...

Pelo contrário. Na crise, a Alemanha foi, depois da China, o maior amortecedor do choque do mundo. Os EUA foram o maior criador. A Alemanha teve estabilizadores automáticos muito fortes, que foram importantes para manter o rendimento e os empregos e, assim, as importações de outros países. O argumento do meu colega Paul Krugman a este respeito está errado.

A Alemanha está à altura das responsabilidades de líder da Zona Euro?

A Alemanha não é de forma alguma a líder. Acontece que é a maior economia porque tem o maior número de pessoas. Mas o seu PIB “per capita” não está de forma alguma no topo. E em termos de liderança política, não vejo que a Alemanha tenha mais liderança do que a França.

Diria que a Grécia ou Portugal irão conseguir sair desta crise sem reestruturar a dívida?

Isso é difícil de dizer, mas eu recomendaria uma reestruturação da dívida à Grécia. O peso dos juros é muito, muito elevado, e pode estar além do que a Grécia consegue pagar no longo prazo. Penso que seria apropriado que eles cortassem parte da sua dívida soberana, sabendo que o fardo cairia, em grande medida, sobre os bancos franceses e alemães.

Recomenda uma reestruturação da dívida para Portugal e para a Irlanda?

Portugal e Irlanda estão em muito melhor forma que a Grécia. Pertencem a uma categoria diferente. Só a Grécia deveria reestruturar a sua dívida. Os outros países estão em segurança, protegidos pelos mecanismos europeus de resgate e são fortes o suficiente para pagarem as suas dívidas.

Os problemas mais profundos da Europa devem-se a diferenças de competitividade e de dívida externa. Como é que toda a gente está a focar-se nas sanções orçamentais e no fortalecimento do PEC?

Porque este é o único ângulo que temos. Se uma economia sobreaquece, como fizeram Portugal, Grécia, Espanha ou Irlanda, então é necessário que os défices orçamentais baixem até se tornarem em excedentes. O governo é quem faz política: o sector  privado não faz política.

A competitividade e o défice externo são problemas que só podem ser atacados através do orçamento?

Através de restrições orçamentais e através de políticas de resgates, mas diferentes das que temos. Se, como alguns países querem, incluindo Portugal, o actual pacote de resgate for prolongado sem alterações, isso significaria que estes países poderiam continuar a endividarse indefinidamente a taxas muito baixas. Assim, o fluxo de crédito da Alemanha para estes países continuaria, e estas economias continuariam a sobreaquecer, a importar mais e os preços também aumentariam. Isto significa que Portugal regressaria ao velho caminho de ter défices externos mais elevados.

O fim das políticas de resgate é vital?

Não. Eu sou a favor de estabelecer um novo programa de ajuda, mas um que sejam acompanhado de perdas para os devedores, de forma a induzir um comportamento mais prudente no futuro. A única forma de reduzir os défices da balança corrente nos países do Sul, e reduzir os excedentes na Alemanha, é que a Alemanha exporte menos capital. Se pararmos de adoptar mecanismos artificiais que facilitem os fluxos de capital, então os défices vão baixar automaticamente.

Se o fardo ficar demasiado pesado para Portugal e para a Grécia, não poderão estes países colocar o euro em perigo, por exemplo reestruturarando as suas dívidas unilateralmente?

Não, não vejo como é que euro possa ser posto em perigo. As obrigações dos países que estão sobreendividados valem actualmente 90%, 80% e até 70% do seu valor facial. Por isso, cortes [“haircuts”] de 10%, 20% e 30% não iriam irritar os mercados. Já um mecanismo sem estas perdas criaria ganhos de capital enormes para os especuladores. Na verdade, acho que a reestruturação de dívida na Grécia seria necessária em breve. O euro em si nunca esteve em perigo. O que esteve em risco foi a capacidade de alguns países europeus continuarem a pedir em prestado tão barato como antes. Os “spreads” de juros estavam, aliás, muito maiores quando o euro foi introduzido, e mesmo hoje estão mais elevados do que em Maio.

Algumas pessoas defendem que a Alemanha quer que todos sejam como a Alemanha, mas que nem toda a gente o pode ser.  Concorda?

A Alemanha esperava que a sua atitude orçamental fosse copiada por outros países europeus. Neste aspecto, seria bom que os outros países do euro seguissem a abordagem alemã: a Alemanha tem, por exemplo, na sua constituição restrições à dívida, que proíbem endividamento no futuro.  Isto seria um bom exemplo. Mas, de resto, cada um dever ficar como é.

Está a focar-se no défice orçamental, mas, por exemplo, a Espanha ou a Irlanda tiveram um bom desempenho orçamental até à crise....

Mesmo isso é discutível. Dado o crescimento rápido e o aquecimento dos mercados imobiliários, estes países poderiam ter tido excedentes orçamentais superiores para arrefecerem as economias.

Alguns economistas defendem que, na última década, a Alemanha implementou uma política de desvalorização competitiva da sua economia, com fraco crescimento de salários para ser muito agressiva nos mercados de exportação. Isto teria impedido os países do sul de crescer. Como comenta?

Na verdade foi o oposto. Porque a Alemanha não cresceu, os outros puderam crescer. A Alemanha perdeu muito capital para os países do Sul, o que provocou  um abrandamento na Alemanha, que se tornou o país lento da Europa. Como resultado, os salários e os preços cresceram pouco, o que aumentoua competitividade e induziu excedentes da balança corrente. Isto não foi um sinal de força, mas o resultado de uma fraqueza resultante da sangria de capital. Os consumidores alemães teriam adorado ter o investimento na Alemanha em vez de em Portugal.

Para rebalançara Europa, espera que a Alemanha cresça mais e o Sul menos. Isto vai exigir políticas especificas?

Não, isso vai acontecer automaticamente através da crise. Os bancos alemães perceberam que as altas taxas de retorno prometidas no papel não se estão a materializar. A Alemanha terá agora mais investimento, mais crescimento, e mais importações. Os seus salários e preços vão aumentar, forçando uma redução da sua competitividade. Para o Sul significará o oposto: tornar-se-á mais competitivo, porque ficará mais barato em termos relativos.

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